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Eu sei. Não preciso que me relembrem do cheiro do corpo, da cama lavada, da banheira submersa em água e espuma, das horas tardias, dos almoços e dos jantares e dos lanches compartilhados. Não preciso que me relembrem do sentido de uma vida com dois nomes distintos. Nem sequer preciso que me relembrem das duas famílias, dos natais aqui e acolá, dos irmãos emprestados, das mães e dos avós de sangue diferente, ou mesmo da sensação de amplitude, ou mesmo da adaptação a uma nova realidade.
Eu sei. Não preciso que me relembrem das noites em branco, da frustração contida, dos choros assolapados, das promessas vãs, do filho no ventre e do amor com sabor a certeza conturbada. Não preciso também que me relembrem da agonia dos dias baixos, das palavras proferidas sem ponderação, do sentido de uma vida com dois nomes distintos nestas condições. Nem sequer careço que me relembrem das dúvidas permanentes, dos sonhos aparentemente esquecidos, da fantasmagórica incerteza. Não preciso que me relembrem dos gestos brutos que, por algumas vezes, resultaram em agressão mútua.
Mesmo que me quisesse esquecer de todos estes momentos passados, tal coisa ser-me-ia, pura e simplesmente, impossível. Há coisas na vida que nunca se esquecem, por muito que tentemos olhar em frente e por muito que lutemos por um horizonte diferente. Há sentimentos que, uma vez sentidos, podem ser ressentidos outra e outra vez, bastando que fechemos os olhos e que nos lembremos deles. São sentimentos que marcam irreversivelmente. São momentos de confronto doloroso com a vida e com a essência do que somos. Momentos onde nos perdemos e onde nos invade o desespero de não nos conseguimos mais encontrar.
Não. Nada disto é fútil. Nada disto é, tão-somente, poético. Por muito que penses que apenas estou a sucumbir à louca necessidade de ornamentar uma realidade crua e indiferente, aqui estou eu para dizer-te o quanto te enganas. Há realidades que não são poéticas. Há amores que terminam tão desoladoramente que nos ferem para sempre. Quando partilhamos o máximo de nós; quando damos a nossa privacidade em troca duma vida conjunta; quando formamos uma família e, depois, logo depois, perdemos tudo, não há poesia.
O que há, sim, é a certeza do quão efémero é tudo à nossa volta. Nada é permanente. Nada é garantido. Nunca se esqueçam disso… vocês, que ainda não passaram por isto e que ainda podem escolher. Para quem já não tem essa possibilidade, porém, aqui fica apenas uma memória dolorosa; uma memória que, cá dentro, no mais silencioso de nós, esperamos que os dias curem e que a vida recompense. No mais silencioso de nós.
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